A finalidade deste espaço é compartilhar com os amigos o interesse por Búzios e sua antiga relação com a Bossa Nova. Bossa Nova não é só música, é um Estilo de Vida. Um Estilo Buziano de Viver. Não vendo disco, só divulgo para os amigos que me pedem emprestado. Se você discorda de algum conteúdo divulgado neste blog, favor entrar em contato. Eu tenho todos os discos que recomendo aqui.
Vamos tentar aqui nesse espaço desvendar a carreira desse grande músico.
Para começar: espanando alguns antigos LPs descobri que Capacete atuou em quase todas as vertente da música no Brasil: samba-jazz, soul music, MPB, jazz, rock, big band, orquestra e sei lá mais o que vou descobrir por aí.
É um músico (tímido) com pouca informação óbvia na Internet. Se você digitar Capacete, com certeza, não vai chegar nem perto do músico. Desista, não é por aí.
Não sei como surgiu essa fama de tímido. Segundo artigo de Alex Solnik em http://brasileiros.com.br/2009/06/o-dia-em-que-sartre-fundiu-a-cuca/ dois músicos da orquestra de Simonetti, Capacete e Edgar Giannulo, eram extraordinários humoristas.
Geralmente eu começo uma pesquisa assim: coloco um pouco do que sei e os amigos me mandam outras informações; vão preenchendo as lacunas. Curto muito fazer isso. Às vezes sai um trabalho legal.
Vou colocar aqui o que sei, e quem tiver mais informação mande pra mim. Obrigado.
Algumas referências sobre Capacete vão aparecer nos links de outros músicos. A maioria tocou junto em algum momento. É um quebra-cabeça que vai se encaixando aos poucos. A carreira desses caras se entrelaçam nos estúdios e nos shows da vida.
Vejam o Capacete nesse disco do Tim Maia - 1971
1971, No mesmo ano Capacete aparece nesse disco do Cassiano, Acho que gravou este antes do disco acima,
1971 - Capacete já está tocando com Marcos Valle.
1964 - Vera Brasil - Tema do Boneco de Palha
1964 - Voltando no tempo.
1965 - Carlos Piper - O Som Espetacular da Orquestra de Carlos Piper
1965 - Zezinho E Seu Sambalanço.
1966 - Trio Boliche
1966 - Quarteto Lambari
1974 - Erlon Chaves - Banda Veneno Vol. 5
1981 - Pe. Zezinho - Lá Na Terra Do Contrário.
Tem também Hector Costita nesse disquinho.
Olha o Capacete aí. (Show Up Big Band)
Na mesma banda tocando com Buda.
Se alguém souber mais alguma coisa sobre esse grande músico favor entrar em contato.
Obrigado.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 05 de novembro de l931 e faleceu em Niterói, em 13 de junho de 2001.
Geralmente quando começo escrever sobre um determinado músico coloco na agulha um de seus discos para ouvir e ver se vem uma inspiração. No momento estou ouvindo The Bossa Três, 1963, Green Dolphin Street. Que coisa linda! Tião Neto, Edison Machado e Vinhas em total harmonia. É uma das músicas que mais gosto nesse disco. Acho que Edison Machado jamais tocou com tanta leveza e suavidade, e Tião Neto, com seu baixo acústico fazendo aquela ponte entre bateria e piano, é demais. E as músicas Só Saudade e Céu e mar? Grande disco. Era a época dos Trios. Todos queriam formar um trio como o de Bill Evans: Scott LaFaro (baixo) e Paul Motion (bateria), um dos mais aclamados trios de todos os tempos. Acho que Os Bossa Três chegaram lá.
Tião Neto, Luiz Carlos Vinhas e Bill Evans
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Tião Neto conheceu Sérgio Mendes em Niterói na década de 50, no Clube Central de Niterói (RJ), depois caiu no Beco das Garrafas, em Copacabana (RJ). Aí tocou com todo mundo e acompanhou todo mundo. Impressionante, qualquer fotografia da época tem Tião Neto no contrabaixo, e olha que a turma era da pesada, todos arrebentando nas tardes de domingo no Little Clube e no Bottle’s (boates do Beco das Garrafas em Copacabana – RJ): trombone - Raul de Souza (Raulzinho), Edmundo e Edison Maciel, sax – J.T. Meireles, Aurino Ferreira, Paulo Moura, Juarez Araújo, Cipó, Jorginho e Bebeto, trompete – Pedro Paulo e Maurílio, piano – Toninho, Don Salvador, Tenório Jr., Luizinho Eça, Luís Carlos Vinhas, violão – Durval Ferreira, Baden Powell, contrabaixo – Tião Neto, Tião Marinho, Otávio Bailey, Manoel Gusmão, Sérgio Barrozo, bateria – Dom Um Romão, Edison Machado, Victor Manga, Chico Batera, Airton Moreira, Wilson das Neves, João Palma, Hélcio Milito, Milton Banana e por aí vai.
Acompanhou todas as estrelas em início de carreira. Você vai ver essa turma aí formando trios, quartetos, quintetos, sextetos e big-band de acordo com a necessidade. Todos se conheciam e se respeitavam. Qualquer cantor que precisasse de acompanhamento era só pintar no Beco das Garrafas e escolher a formação mais adequada.
Tião Neto, Tenório Jr., Victor Manga, Ronaldo Bôscoli, Cláudio, Giovanni Campana, Hélcio Milito e Luiz Carlos Vinhas
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Tião Neto não foi um músico que gravou e tocou com todo mundo com Luizão Maia e Sérgio Barrozo, outros dois grandes baixistas do Brasil, sempre esteve ligado a uma banda. No começo da carreira formou Os Bossa Três. Em 1966 tocou nos EUA no Bola Sete Trio, com Bola Sete no violão e Paulinho Da Costa na bateria. O registro desse trio está no disco Bola Sete at the Monterey Festival. Infelizmente muito difícil de achar essa bolacha. Depois tocou muito tempo com Sérgio Mendes.
A partir de 1983, de volta ao Brasil, passa a tocar com Tom Jobim e a Banda Nova. De1990 até 1997 acompanha Nana Caymmi. Em 1995 cria o T.N.T – Tião Neto Trio.
Sua carreira começou no Bottle’s de Alberico Campana, hoje dono da Churrascaria Plataforma, no Leblon, reduto de Tom Jobim quando vivo. Alí nasceu o Bossa Rio, tremenda banda instrumental com um som hard-bossa totalmente selvagem. A banda era formada por Tião Neto, contrabaixo, Raul de Souza (Raulzinho), trombone de válvula, Edson Maciel, trombone de vara, Hector Costita, sax-tenor, Edson Machado, bateria, Aurino Ferreira, sax-tenor e Sérgio Mendes, no piano. Dá para acreditar? Isso deve ter sido alucinante.
Sérgio Mendes, Maciel, Edison Machado e Tião Neto
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Bossa Rio - Universidade Mackenzie, São Paulo
Juarez, Aurino, Edson Maciel, Victor Manga, Tião Neto e Sérgio Mendes
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Em 1962 participa do memorável show na boate Au Bom Gourmet, em Copacabana (RJ), que reuniu nada menos que Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Milton Banana e o conjunto Os Cariocas. Nesse palco foram apresentados os sucessos Samba da Benção, Garota de Ipanema, Samba do Avião, Astronauta entre outras.
Em 1962 forma Os Bossa Três e gravam seis discos de imenso sucesso: Os Bossa Três (1962), Bossa Três e Seus Amigos (1962), Bossa Três e Jo Basile (1962), Bossa Três e Lennie Dale (1962), Em Forma (1965) e Bossa Três (1966).
Estou ouvindo agora Blues Walk (The Bossa Três, 1963), a primeira faixa. Que sacode. Demais. Uma aula de contrabaixo para a garotada.
Tião Neto, Luiz Carlos Vinhas, Herbie Man, Kenny Dorhan. Sérgio Mendes só assistindo
(Livro - Bossa Nova -História Som e Imagem)
Ensaio de Lennie Dale com Tião Neto, Luiz Carlos Vinhas e Edison Machado na boate Fred's (Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Em 1962, Tião Neto, de bobeira em Nova York, é chamado por Tom Jobim pra gravar aquele disco Getz/Gilberto. Milton Banana, na bateria, também aparece nessa fita. Getz/Gilberto levou alguns Grammys (quatro milhões de discos, mais que os Beatles) e uma grana pra turma. Nem todos se deram bem.
Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Após o famoso concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall (Nova York), em novembro de1962, e a gravação do LP Getz/Gilberto, Tião Neto parte para a Europa com João Gilberto ao violão, João Donato ao piano e Milton Banana na bateria. Um time da pesada. Acho que nunca mais se formou um quarteto desse nível. O mais incrível é que eles não ensaiavam nada, saia tudo na hora. Também não precisava, era só um olhar para o outro e dar aquela risadinha sacana. Tião Neto deve ter passado um sufoco com esses três malucos circulando pela Europa
João Gilberto, João Donato, Milton Banana e Tião Neto
(Livro - Chega de Saudade)
Em 1963 vai para os EUA com Os Bossa Três. Toca lá naqueles inferninhos do jazz e cai no Ed Sullivan Show, aquele programa onde se apresentaram também os Beatles. Não sei se foi bom ou ruim. Em minha opinião, Edison Machado deve ter achado um saco. Era um programa de grande audiência, do tipo Silvio Santos no Brasil. Aparecia de tudo: mágico, ventrílogo, malabarista e até músicos. Aliás, domingo sempre foi o auge do brega na televisão no mundo todo.
Night Club Shelly's Manne Hole, Los Angeles. Chico Batera, Barney Kessel, Bud Shank, Tião Neto e Sérgio Mendes.
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Em 1964 cai na estrada com o Sérgio Mendes Trio, agora com Chico Batera no seu instrumento original. Excursiona pela América do Norte, América do Sul e Japão. Com o trio grava “The Swinger From Brasil”. Um bom disco. Fizeram muito sucesso no México. Aliás, a Bossa Nova era idolatrada no México. Muita gente foi pra lá. E teve a Copa do Mundo de 70 com aquele timaço do Brasil que levou o Tri. Depois de São Paulo e Rio, Guadalajara foi o terceiro berço da Bossa Nova.
Em 1965 vai para Los Angeles (EUA), grava com um monte de gente e passa a tocar com Sérgio Mendes e o Brasil, 66, 77e 88. Deve ter curtido muito esse período. Sérgio Mendes tirava a maior onda nessa época com aquela música “Mas Que Nada” do Jorge Ben. E aquelas duas loiras lidíssimas de minissaia no vocal. Isso era o Brasil 66 de Sérgio Mendes. Dom Um, na batera, só na retaguarda curtindo o visual.
Chegaram a tocar em Washington, na Casa Branca, em 1974, para o presidente Nixon, e em 1978, para o presidente Reagan. O primeiro aí não saiu bem na fita. Sérgio Mendes deve ter ficado meio preocupado. Em 1979 e 1980 tocam no Carnegie Hall. Sucesso absoluto. Sérgio Mendes é realmente um fenômeno. Com certeza ele deve se lembrar do início de carreira quando saia de Niterói, pegava a barca da Cantareira pra atravessar a Baia de Guanabara e praticamente pagava para tocar no Beco das Garrafas com as feras. Foi um salto e tanto. Interessante, como Niterói dá bons músicos. Ainda vou escrever sobre isso.
Tião Neto nasceu no Rio de Janeiro, mas sua identificação é toda com Niterói. Acho que nasceu no Rio por acaso. Você sabia que Liv Ullmann, aquela sueca dos filmes de Igmar Bergman, nasceu no Japão? Pois é.
Tião Neto em Los Angeles com Sérgio Mendes e Dori Caymmi.
(Livro - Bossa Nova - História Som e Imagem)
Tião Neto rodou o mundo com o grupo de Sérgio Mendes (Brasil 66, 77 e 88) até 1982. Volta ao Brasil e monta um estúdio para gravação de gingles e campanhas comerciais. De vez em quando ainda saia com Sérgio Mendes para uma apresentação aqui outra ali.
Em 1984 é convidado por Tom Jobim para ingressar na Banda Nova que ele estava formando para tocar na Europa. Tom tinha sido convidado pelo maestro Peter Guth para se apresentar na Áustria com a Filarmônica de Viena. Acho que Tom sentiu o peso e chamou uns amigos e parentes para acompanhá-lo. Chegou Danilo Caymmi, Tião Neto, Paulo Braga, Paulo Jobim, Beth Jobim, Simone Caymmi e Ana Jobim. Mais tarde se incorporou ao grupo Maúcha Adnet, Paula e Jaques Morelembaum. Deu certo. Esse grupo rodou o mundo até a morte de Tom, em 1994. Em 1987 tocam no Japão. Em 1990 se apresentam no Lincoln Center, em Nova York. Em l992, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1995, voltma a tocar no Carnegie Hall. Mais sucesso. Tom estava cheio das bossas e o grupo afinadíssimo.
Em 13 de junho de 2001, depois de lutar contra um câncer na bexiga, Tião Neto faleceu, aos 69 anos, na sua cidade querida, Niterói. A profissão de músico nem sempre é justa, mas o pessoal que toca contrabaixo sempre tem um semblante feliz, não sei por quê. Quase sempre são aqueles barbudinhos que ficam lá na cozinha segurando as derrapadas das estrelas e o delírio dos egos. Poucos chegam ao estrelato, nem ligam, mas nós, músicos, os reverenciamos e sabemos de sua importância. Nunca serão esquecidos.
Luizão Maia (1949 - 2005)
Luiz Oliveira da Costa Maia, nasceu no Rio de Janeiro em 3 de Abril (Áries) de 1949 e faleceu no Japão em 28 de Janeiro de 2005. Como pode ir morrer tão longe da gente, e tão novo? Um grande músico. E para quem o conheceu, um cara “boa - praça”. Nelson Rodrigues, nosso grande dramaturgo, achava que os gordos são sempre mais amáveis. Luizão não era assim chamado apenas por ter sido grande, mas, também, Luizão, era uma forma carinhosa como era tratado pelos seus muitos amigos. Lembrava aquele tio “gente boa” que te ensinou um monte de sacanagem quando você era pequeno e você nunca esqueceu. Grande figura.
Quando pensei escrever sobre esses músicos que trabalham duro na penumbra e acompanham as estrelas no fundo dos palcos não imaginava suas verdadeiras dimensões. Algumas estrelas são ou foram totalmente dependentes deles; devem boa parte do seu sucesso a esses músicos. Alguns se tornaram maior que as estrelas, outros brilharam e continuam a brilhar além das estrelas. Esse é o caso do nosso Luizão.
Ao pesquisar a discografia de Sérgio Barrozo (grande baixista, já mencionado aqui no blog) fiquei impressionado com seu curriculum. Agora com o Luizão, a coisa também ficou séria. Como pode? O cara também tocou com todo mundo. Eles devem ter se encontrado milhares de vezes nos corredores dos estúdios. Um perguntando pro outro: - Quem vai, é você ou eu? Deve ter sido hilário. Luizão fala pro Sérgio: - Se for acústico é com você, se for elétrico, deixa comigo. Não sei se isso aconteceu de fato, é apenas uma viagem. Mas é possível.
Luizão era um mulato ali de Vila Isabel (terra de Noel), subúrbio do Rio, que despontou no cenário musical pelos idos de 1964, em plena Revolução, tocando com Tânia Maria e Chico Batera no “Samba Trio” (sinceramente não me lembro desse grupo). Em 1968, já era o baixista preferido de Elis Regina. Nesse período ele abandona o contrabaixo acústico e vai pro baixo elétrico. É um momento em que a música começa a ter grande audiência. O rock e a música negra chegam ao grande público. O espetáculo agora é a multidão. O contrabaixo acústico continua associado às orquestras, à música de câmera, aos pequenos salões, ao jazz, um público restrito. O baixo elétrico abre novas possibilidades; um som mais pesado, mais vibrante, cheio de timbres.
De tempos em tempos um determinado músico desenvolve um estilo. Alguns dizem que criou algo novo. Isso é complicado. A música, assim como toda arte, está sempre em evolução, o novo e o velho sempre se misturam. Sempre um passo a frente. Pode acontecer de dar um passo atrás. Lastimo. Tem acontecido com frequência. A molecada que estuda baixo hoje idolatra o Marcus Miller. Já foi a época do Jaco Pastorius, e pros mais antigos, que nem eu, teve a época do grande Scott LaFaro; aquele que arrebentava tocando com Bill Evans, Chet Baker, Miles Davis e outros de menor calibre. Ainda poderia citar o Paul McCartney, no disco Rubber Soul, que dá uma aula de baixo. Resumindo: no Brasil, o aprendiz de baixista que quiser tocar samba e bossa tem que ouvir Luizão Maia. Ponto final. Esse criou um estilo. Podem colocar na vitrola qualquer disco anterior a Luizão Maia que vocês vão me dar razão. É conhecido como o inventor do Sambaixo. Não é pouca coisa não. O Brasil é o berço do samba. Continuando.
Em 1966, junto com Márcio Montarroyos, Hélio Delmiro e Cláudio Caribé (olha só a turma) forma o conjunto “Fórmula 7”. Gravam três discos, com diversas formações, tocando tudo que era sucesso na época: Stevie Wonder, Koll & The Gang, James Brown, Blood Sweat & Tears e, claro, os Beatles. Até um tal de Gerson King Combo aparece nessa fita. Era o tal “bailão”. Todo mundo tem saudades do Fórmula 7. Zona Norte e Zona Sul. A ditadura pegando todo mundo e nós lá no baile. Não conta pra ninguém.
Em 1968, o Brasil e o mundo entram naquela onda psicodélica: guerra do Vietnã, “Black Power”, hippie, Era de Aquário. Ninguém sabe o que fazer, qual a direção. É o “desbunde lisérgico”, o amor livre, a maconha e os doidões. É uma fase de transição para a música também. É o mundo pré - Woodstock, quebrando tudo. Nessa onda, Luizão forma o grupo “Antônio Adolfo e a Brazuca”. Antônio Adolfo é aquele que compôs “Sá Marina” (que o Stevie Wonder gravou), “Juliana” e “BR3”, que ganhou o V Festival Internacional da Canção, em 1970, com Tony Tornado, seus requebrados e outros babados. O mundo era complicado, eu sei. Acho que o Luizão já estava em outra onda, com Elis Regina, César Camargo Mariano e Paulinho Braga. Como diz o nosso amigo Charles Gavin: “Aí, já é outra história”.
Luizão era um cara que não escondia suas grandes admirações: Bebeto, do “Tamba Trio”, Tião Neto, do “Bossa Três”, Sérgio Barrozo e Ron Carter. Também concordo.
Acho que a fase que Luizão mais curtiu foi com Elis Regina. O time era muito forte. Era só “swing”. Foram grandes discos. Elis sabia escolher a sua “cozinha”. O disco “Elis & Tom”, de 1974, é antológico (já tem na praça). Se você ainda não tem, corra pra comprar. Tem aquele outro, “Essa Mulher”, de 1979. E o “Elis Regina em Montreux”, de 1982, com Hermeto, Hélio Delmiro, Paulinho Braga e companhia. É de arrepiar os cabelos. Todos, com Luizão mandando ver, é claro.
Esse disco “Elis & Tom” deu muita confusão. Vocês sabem como é: Elis e Tom juntos, é (era) só "ego". Mas, Elis levou: - meu baixista é o Luizão, Paulinho Braga é meu batera e o Hélio Delmiro é a minha guitarra, e, claro, César Mariano, meu piano. Ou seja, aquele time que a gente já conhece: “swingueira”. É um disco da Elis, me desculpe, para o Tom brilhar nos EUA. Lógico que ele já tinha composto “Águas de Março” há muito tempo. Já tinha saído em um disquinho do “Pasquim” (1972).
Bom, esquecemos o Luizão. Voltemos a ele. Após a morte de Elis, em 1982, Luizão forma o grupo “A Tampa”, com Victor Biglione (guitarra), André Tandeta (bateria), Zé Luiz (sax e flauta), João Rebouças (piano). É um showzinho aqui, outro ali, nada demais. Pula.
Nesse período acompanha Toquinho em turnê pela Itália, sem maiores motivações, pois Vinícius já tinha morrido, e Toquinho sem Vinícius já não era a mesma coisa. Além do mais, o grande baixista da fase Toquinho e Vinícius era outro grande baixista, Azeitona. Já vou falar dele. Mais um whisky.
Em 1989, Luizão forma a “Banda Banzai“. Assim como o antigo “Copa 7”, com sua formação variada, teve vida efêmera. E olha que os músicos são da pesada (JT Meirelles, Claudio Jorge, Itamar Assiére e outros cabritos). No Yootube tem até uma aparição da turma no “Jô 11:30”. Vou colocar aqui o “Link”. Chega de conversa.
Tem aquela fase do Japão que nem quero comentar, muito chata, triste. Vou colocar na pista os discos de um cara bacana: Luizão Maia.
Discografia (incompleta)
1969 - Antônio Adolfo - Antônio Adolfo E A Brazuca
1970 - Elis Regina - Em Pleno Verão
1973 - Beth Carvalho - Canto Por Um Novo Dia
1973 - Elis Regina - Elis
1974 - Elis Regina - Elis & Tom
1974 - Raul Seixas - Gita
1974 - Elis Regina - Elis
1975 - Carlos Lyra - Herói Do Medo
1975 - João Bosco - Caça A Raposa
1975 - Raul Seixas - Novo Aeon
1975 - Copinha - Jubileu De Ouro
1975 - Beth Carvalho - Pandeiro E Viola
1976 - Beth Carvalho - Mundo Melhor
1976 - Chico Buarque - Meus Caros Amigos
1976 - Gal Costa - Gal Canta Caymmi
1976 - João Bosco - Galos De Briga
1976 - Jorge Mautner - Mil E Uma Noites De Bagdá
1976 - Monarco - Monarco
1977 - Antônio Adolfo - Feito Em Casa
1977 - Beth Carvalho - Nos Botequins Da Vida
1977 - Caetano Veloso - Bicho
1977 - Elis Regina - Elis Ao Vivo
1977 - Elza Soares - Pilão+Raça=Elza
1978 - Antônio Adolfo - Encontro Musical
1978 - Beth Carvalho - De Pé No Chão
1978 - Chico Buarque - Chico Buarque
1978 - Clara Nunes - Guerreira
1978 - Edu Lobo - Camaleão
1978 - Djavan - Djavan
1978 - Gal Costa - Água Viva
1978 - Maria Bethânia - Álibi
1978 - Nara Leão - E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno
1978 - Wagner Tiso - Wagner Tiso
1978 - Walter Franco - Respire Fundo
1978 - Joel Nascimento - Meu Sonho
1979 - Lee Ritenour - Rio
1979 - Elis Regina - Essa Mulher
1979 - Ivan Lins - A Noite
1979 - João Bosco & Aldir - Linha De Passe
1979 - Luiz Gonzaga Júnior - Gonzaguinha Da Vida
1979 - Maria Bethânia - Mel
1979 - Toquinho, Vinicius de Moraes - 10 Anos Depois
1979 - Wilson Simonal - Se todo Mundo Cantasse Seria Mais Fácil Viver
1979 - Cartola - Cartola 70 Anos
1979 - Mauricio Einhor - ME
1980 - Clara Nunes - Brasil Mestiço
1980 - Chico Buarque - Vida
1980 - Djavan - Alumbramento
1980 - João Bosco & Aldir - Bandalhismo
1980 - Marcos Valle - Vontade De Rever Você
1980 - Miúcha - Miúcha
1980 - Maria Bethânia - Talismã
1980 - Nara Leão - Com Açúcar E Com Afeto
1980 - Túlio Mourão - Trilhos – Música Popular Brasileira
1980 - Luiz Cláudio Ramos - Música Popular Brasileira Contemporânea
1981 - Clara Nunes - Clara
1981 - João Bosco - Essa É Sua Vida
1981 - Pascoal Meirelles - Considerações A Respeito
1981 - Beth Carvalho - Na Fonte
1982 - Angela Maria e Cauby Peixoto - Ângela & Cauby
1982 - Angela RoRo - Simples Carinho
1982 - Beth Carvalho - Traço De União
1982 - Chico Buarque - Chico Buarque En Español
1982 - Clara Nunes - Nação
1982 - Eduardo Dussek - Cantando No Banheiro
1982 - Elis Regina - Trem Azul
1982 - Elis Regina - Elis Em Montreux
1982 - Nivaldo Ornelas - Viagem Através De Um Sonho
1983 - Beth Carvalho - Suor No Rosto
1983 - Ivan Lins - Depois Dos Temporais
1983 - Paulinho da Viola - Prisma Luminoso
1983 - Vinicius Cantuária - Gávea De Manhã
1983 - Telma Costa - Telma Costa
1983 - Tunai - Olhos Do Coração
1983 - Bebel Gilberto e Pedrinho Rodrigues - Geraldo pereira
1984 - Beth Carvalho - Coração Feliz
1984 - Chico Buarque - Chico Buarque
1984 - João Bosco - Gagabirô
1984 - João Nogueira - Pelas Terras Do Pau - Brasil
1984 - Martinho da Vila - Martinho Da Vila Isabel
1984 - Filó Machado - Canto Fatal
1985 - Beth Carvalho - Das Bençãos Que Virão Os Novos Amanhãs
1985 - Dominguinhos - Isso Aqui Tá Bom Demais
1985 - Leny Andrade - Leny Andrade
1985 - Mestre Marçal - Recompensa
1986 - Wagner Tiso - Branco E Preto, Preto E branco
1986 - Elizeth Cardoso - Luz E Esplendor
1987 - Sivuca E Rildo Hora - Sanfona E Realejo
1987 - Simone - Vício
1987 - Wagner Tiso - Giselle
1988 - Leny Andrade - Leny Andrade Interpreta Cartola
1988 - Nelson Gonçalves - E Por Falar Em Paixão
1988 - Carlinhos Vergueiro - Carlinhos Vergueiro e Convidados
1988 - Zeca Pagodinho - Jeito Moleque
1988 - Roberto Ribeiro - Roberto Ribeiro
1988 - Beth Carvalho - Alma Do Brasil
1989 - Chico Buarque - Chico Buarque
1989 - Djavan - Djavan
1989 - Toninho Horta - Moonstone
1990 - Leny Andrade - Eu Quero Ver
1990 - Adoniran Barbosa - O Poeta do Bixiga
1990 - Arthur Maia - Maia
1990 - Chiquinho do Acordeon - Chiquinho Do Acordeon
1990 - Nivaldo Ornelas - Colheita De Trigo
1990 - Romero Lubambo & Rildo Hora - Autonomia
1991 - Martinho da Vila - Vai Meu Samba, Vai
1991 - Songbook – Noel Rosa - Noel Rosa
1991 - Songbook – Gilberto Gil - Gilberto Gil
1991 - Tim Maia - Clássicos Da Bossa Nova
1992 - Maria Bethânia - Olho D´Água
1992 - Rildo Hora - Espraiado
1993 - Chico Buarque - Paratodos
1993 - Gilson Peranzzetta - Gilson Peranzzetta
1993 - Tim Maia - Tim Maia
1993 - Songbook - Carlos Lyra - Carlos Lyra
1993 - Songbook – Dorival Caymmi - Dorival Caymmi
1993 - Songbook – Vinicius De Moraes - Vinicius De Moraes
1993 - Fátima Guedes - Pra Bom Entendedor
1994 - Dirceu Leite - Leite De Coco
1994 - Tim Maia - Voltou Clarear
1999 - Wilson Moreira - Okolofé
2001 - Sizão Machado - Quinto Elemento
2002 - Chico Buarque - Duetos
2002 - Arthur Verocai - Saudade Demais
2002 - Raphael Rabello - Mestre Capiba Por Raphael Rabello e Convidados
Essa é uma listagem, ainda incompleta, dos registros em disco do Luizão. É apenas para dar uma idéia da sua importância e versatilidade no cenário musical, tanto nacional como internacional. Luizão também tocou com grandes músicos do porte de, Sadao Watanabe, George Benson, Stan Getz, Wayne Shorter, Toots Thielemans, Herbie Hancock, Claus Ogerman, Cred Taylor, e muito mais. Em alguns locais é citada também Janis Joplin. Não consegui confirmar esse encontro. À medida que for descobrindo vou atualizando essa planilha.
Mesmo com esse curriculum, Luizão não teve uma vida confortável. Sempre precisou trabalhar muito para se manter. Quando ele sofreu um derrame em 1994, que praticamente lhe paralisou o lado direito do corpo, amigos tiveram que realizar shows beneficentes para arrecadar fundos para seu tratamento. A partir de então vai morar no Japão com sua esposa Yoko Bekku e começa uma série de tratamento de reabilitação. Luizão não desistiu e ainda tocou por um bom tempo só com a mão esquerda. Um fenômeno.
Em 28 de janeiro de 2005, após sofrer o terceiro derrame, Luizão Maia não resistiu e faleceu no Japão. Longe de casa. Deixou um legado para o contrabaixo. Seu sobrinho Arthur Maia, que ganhou um contrabaixo do tio no início de carreira, é a prova viva dessa escola.
Mais discos os quais Luizão Maia participou (contribuição do leitor)
1972 - Erasmo Carlos - Sonhos e Memórias
1974 - Osmar Milito - Viagem
1974 - Antonio Carlos e Jocafi - Definitivamente
1974 - Maria Creuza - Sessão Nostalgia
1974 - Marcos Valle - Marcos Valle
1975 - Waltel Branco - Meu Balanço
1975 - Luiz Henrique - Mestiço
1975 - Antonio Carlos e Jocafi - Ossos do Ofício
1975 - Cesar Costa Filho - De Silêncio em Silêncio
1975 - Dominguinhos - O Forró de Dominguinhos
1975 - Quarteto em Cy - Antologia do Samba Canção
1975 - Simone - Gotas D'Água
1976 - Leci Brandão - Questão de Gosto
1976 - Quarteto em Cy - Antologia do Samba Canção Vol. 2
1976 - Pery Ribeiro - Bronzes e Cristais
1977 - Quarteto em Cy - Resistindo Ao Vivo
1977 - Maria Creuza - Meia Noite
1977 - Paulo Britto - Atenção
1977 - Antonio Carlos e Jocafi - Louvado Seja
1977 - João Nogueira - Espelho
1977 - Dominguinhos - Oi Lá Vou Eu
1977 - Nara Leão - Meus Amigos São Um Barato
1978 - Maria Creuza - Doce Veneno
1978 - Quarteto em Cy - Querelas do Brasil
1978 - Gisa Nogueira - Gisa Nogueira
1978 - João Nogueira - Vida Boêmia
1979 - Rosa Passos - Recriação
1979 - Lee Ritenour - Lee Ritenour in Rio
1979 - João Nogueira - Clube do Samba
1980 - Quarteto em Cy - Quarteto em Cy Interpreta Gonzaguinha, Caetano, Ivan e Milton
1981 - Jackson do Pandeiro - Isso é que é Forró
1981 - Quarteto em Cy - Caminhos Cruzados
1983 - Quarteto em Cy - Pontos de Luz
1986 - Luiz Gonzaga - Forró de Cabo a Rabo
1988 - Luiz Gonzaga - Aí tem Gonzagão
Mais discos os quais Luizão Maia participou (contribuição do leitor)
1969 - Ugo Marotta - Summertime (Compacto) 1976 - Fernando Ribeiro - Em Mar Aberto 1976 - Marku Ribas - Marku 1978 - Agepê - Tipo Exportação 1978 - Mestre Marçal - Marçal Interpreta Bide e Marçal 1978 - Toquinho - Toquinho Cantando Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum 1978 - Mauricio Einhorn - ME 1979 - Maria Creuza - Pecado 1979 - Viva Voz (Compacto) 1980 - João Nogueira - Boca do Povo 1980 - Leci Brandão - Essa Tal Criatura 1980 - Raimundo Sodré - Massa 1981 - Toquinho - Doce Vida 1981 - Jorge Mautner - Bomba de Estrelas 1984 - Roberto Ribeiro - De Palmares Ao Tamborim 1984 - Ruy Maurity - Ruy Maurity 1987 - Rildo Hora - O Tocador de Realejo 1987 - Sivuca & Guitars Unlimited - Let's Vamos 1989 - Cesar Machado - Litoral 1993 - Quarteto em Cy - Vinicius em Cy
Mais discos os quais Luizão Maia participou (contribuição do leitor)
1976 - Djavan - A Voz, o Violão, A Música de Djavan 1986 - Dominguinhos - Gostoso Demais 1986 - Hermelinda - Forró Verdadeiro 1986 - Rique Pantoja - Rique Pantoja Featuring Ernie Watts 1987 - Oscar Castro Neves - Brazilian Scandals 1988 - Sebastião Tapajós - Sambas & Bossas On Guitar 1989 - Hendrik Meurkens - Samba Importado 1991 - Bebel Gilberto - De Tarde...Vendo O Mar 1992 - Raphael Rabello - Todos os Tons 1992 - Pascoal Meirelles - Considerações
Eumir Deodato, Hugo Marota, Sérgio Barrozo e João Palma
Foto de 1960 - Concerto de Bossa Nova na PUC-RJ.
Bebeto Castilho (na flauta), Herbie Man (flauta), Hélcio Milito (bateria), Tião Neto (contrabaixo) e Luizinho Eça (piano). Ainda na foto, Luiz Carlos Vinhas, Paulo Cesar de Oliveira, Sérgio Barrozo, Yara Menescal e o cartunista Leon Eliachar.
Foto do livro Bossa Nova Som e Imagem
Sérgio Barrozo
Sergio Portella Barrozo Netto, nasceu no Rio de Janeiro em 16 de junho de 1942. Esse extraordinário contrabaixista tocou e ainda toca com quase todo mundo. Difícil é saber com quem ele não tocou e com quem ele ainda vai tocar.
Geralmente quando você pensa em escrever sobre determinado personagem a primeira dificuldade é achar informação. Quando você não acha nada, a coisa fica difícil, o trabalho é pesado, leva tempo garimpando. Com Sergio Barrozo aconteceu justamente ao contrário: ele aparece em milhares de referências. Outro problema: como organizar tudo isso? Achei que fazendo uma tabela indexada por data de sua vida como músico poderia servir como base para uma futura biografia.
Ele apareceu no cenário musical em 1962 no conjunto de Roberto Menescal e em 1963 grava “A Bossa Nova de Roberto Menescal e seu Conjunto” e no mesmo ano o disco “Baden Powell Swings With Jimmy Prath”. Já começa tocando com as “feras”, e isso aos 20 anos.
Quando pensei em escrever um pouco sobre esse músico já sabia que ele tinha gravado muito, tocado com muita gente, enfim, uma carreira longa, etc... mas não tinha idéia do que viria pela frente. Como toda pesquisa, atualmente, você entra no Google, dá uma olhada nos links. À princípio vem os medalhões, aqueles que todos conhecem, depois começa a aparecer a raia miúda, os que sempre ficam em segundo plano; aqueles que acompanham os medalhões. De saída vi no Wikipédia aquela relação de discos dos quais ele participou. Alguns eu tenho em vinil. Fui lá conferir, pois nunca se sabe se os dados que você vê na Internet são confiáveis. Já vi muita besteira. Conferi, e as informaçõe eram verdadeiras. Bom, vamos para outro parágrafo.
Vem, Agepê, Copinha, Tom Jobim, Egberto Gismonti, João Nogueira, Taiguara, Raul Seixas, Edu Lobo, Aracy de Almeida, Luizinho Eça, Michel Legrand, Paulo Moura, Sarah Vaugham, Marisa Gata Mansa, Martinho da Vila, Candeia, Eumir Deodato. Parei e pensei: - O que é isso? Quem é esse cara? E era só o começo, a coisa não parava. Cada link me levava a outro link, outra descoberta. Resumindo, o que era para ser apenas um resumo pro meu blog se tornou uma obsessão: Vou descobrir o que puder desse cara! Fui pro meu estúdio, onde ficam os meus discos de vinil, e comecei a baixar tudo: João Nogueira, Tenório Jr, César Costa Filho, Baden Powell, Caetano Veloso, Salvador Trio, Erlon Chaves, Victor Assis Brasil, Marcos Valle, MPB4, etc. Fui ler os créditos na contracapa. É isso mesmo, contracapa, os discos de vinil tinham essa mania de dar crédito aos músicos, compositores, produtores, arranjadores. Aparecia até o crédito de quem fez a capa. Alguns são famosos. Verdadeiras obras de arte. Hoje você baixa um MP3, pirata, e coloca pra tocar, se não gostar, deleta e fim. A música se tornou apenas um som ambiente pra se ouvir no carro ou trilha sonora pra tocar no churrasco. Outro parágrafo e outro whisky, por favor.
O cara é um monstro. Nunca vi nada igual. Acho muito difícil que tenha outro músico, no Brasil ou no exterior, que tenha gravado e tocado com tanta gente como o Sérgio Barrozo. Esse músico lá nos EUA seria idolatrado em Berkeley e em outras resenhas. No Brasil toca com todo mundo: churrasco, batizado, na rua, na pracinha, na praia. Na sua simplicidade, abraçado ao seu instrumento de estimação, com mais de 50 anos de dedicação, ainda está na pista. Quase garotão. O olhar ainda tem o mesmo tesão do Beco das Garrafas quando acompanhava Elis Regina e Simonal. Fantástico! Mais um parágrafo.
Geralmente o músico, desde cedo, se identifica com um estilo: bossa, jazz, samba, rock, blues, funk, progressivo, etc. Esse não. Toca tudo e de tudo. Sérgio Barrozo, neto do pianista e compositor Joaquim Antonio Barrozo Netto, começou, como muitos garotos da época, na onda do jazz. Conheceu a turma do Beco das Garrafas, ali na Rua Duvivier, em Copacabana, naqueles efervescentes dias e noites de bossa e jazz. A turma quebrando tudo, aquele ambiente pequeno, cheio de fumaça e whisky vagabundo, o samba e o jazz se encontrando, a Bossa Nova no auge. Não sei onde ele estudou, nem o que fez antes, mas já chegou tocando com a galera do andar de cima. Pausa.
Em 1964, o garoto de 22 anos, já está tocando com Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Maysa, Rosinha de Valença, Marcos Valle, Tenório Jr., Wanda Sá e outros mais. Como pode? Incrível! Eu sei que essa turma ficou famosa mais tarde, mas Tom Jobim, Caymmi e Vinícius já eram medalhões. Continuando.
Em 1965, forma o Rio 65 Trio, com Dom Salvador no piano e Edson Machado na bateria. Um time de primeira. Em 1966, já vemos o cara no Trio 3D e no disco de Aracy de Almeida. Durma com um barulho desses! Em 1965, grava com o Rio 65 Trio o disco que mudou definitivamente a carreira de Elis Regina, “Samba eu Canto Assim”. Caramba!
Em 1966, com Durval Ferreira e Eumir Deodato no comando, grava um discão: “Aquele Som Dos Gatos”. É a Bossa Nova descobrindo outros caminhos, outras harmonias, outra “levada”. O banquinho e o violão não é a onda dessa molecada, o som é instrumental e pesado, como eles sempre gostaram de tocar. Nesse mesmo ano grava com Dom Salvador e Edson Machado outra pauleira, “Salvador Trio”. É som demais!
1964 e 1965 são os Anos de Ouro da música no Brasil. Ainda vou escrever sobre isso. Nunca se gravou tanto em tão pouco tempo. São milhares de discos e uma série de gravadoras que brotaram em todos os cantos do Brasil. Quando eu coloco na planilha do Excel e organizo por data, é de cair o queixo. Assustador. A música instrumental chega ao ápice. Cada Trio, Quarteto, Quinteto, Sexteto ou Big Band é melhor do que o outro. O Rio de Janeiro e São Paulo dominam o cenário. Curiosidade: 1964 é o ano que o país cai no regime militar e vive o som da beatlemania. Para a música instrumental “O Sonho Acabou”.
Em 1967 não sei o que andou fazendo, mas em 1968 já veio com Baden Powell (O Som) e Victor Assis Brasil (Trajeto). Dois discos históricos. Todo mundo tem que ter essas bolachas na estante. Quem não ouviu “Canto de Ossanha” no disco do Baden, não ouviu nada.
Em 1969 ele muda um pouco o foco. Novos tempos. Grava com Caetano, Gil e Egberto Gismonti. Já não é mais aquele som instrumental, mas o nível continua alto. O time continua de primeira. Vamos ver mais.
Em 1970 grava com Luiz Eça o disco “Piano e Cordas”, outro clássico, e “Samba Tropi - Até Aí Morreu Neves” com Wilson das Neves e seu conjunto.
Bom, a partir desse ponto, vou usar a minha planilha do Excel para falar de Sergio Barrozo. Vocês tirem as suas conclusões.
1971 – Wilson Simonal - Jóia Jóia
1972 - Eu & Elas - Carlos Lyra
1973 – César Costa Filho - E Os Sambas Viverão 1973 – Chiquinho do Acordeon – Viagem – Maria Gata Mansa 1973 – Eumir Deodato – Os Catedráticos 1973 – Francis Hime - Francis Hime 1973 – Hermes Contesini - Welcome To Sambaland 1973 – Jorge Menezes - Welcome To Sambaland 1973 – Marisa Gata Mansa - Viagem 1973 – Nelson Ângelo - E Os Samba Viverão – César Costa Filho 1973 – Taiguara - Fotografias 1973 – Zé Menezes - Welcome To Sambaland 1973 – Zé Bodega - Welcome To Sambaland 1974 – Erlon Chaves - Banda Veneno Vol. 5 1974 - Raul Seixas - Gita 1975 – Candeia - Candeia, Samba De Roda 1975 – Clara Nunes - Claridade 1975 – Maria Creuza - Os Grande Mestres Do Samba 1975 – MPB4 - 10 Anos Depois 1975 – Nara Leão - Meu Primeiro Amor 1975 – Toninho Horta - Forró De Dominguinhos 1975 - Dominguinhos - Forró De Dominguinhos 1975 – Meu Balanço – Waltel Branco 1976 – Abel Ferreira - Brasil, Sax e Clarineta 1976 – Chico Buarque - Meus Caros Amigos 1976 – Luiz Cláudio Ramos - Meus Caros Amigos – Chico Buarque 1976 – Luiz Gonzaga - Capim Novo 1976 – Maria Bethânia - Pássaro Proibido 1976 – Martinho da Vila - Rosa do Povo 1977 – Ana Rosely - Estou Contigo E Não Abro 1977 – Elizeth Cardoso - Elizeth Cardoso no Japão 1977 – Emílio Santiago - Feito Pra Ouvir 1977 – Frank Valdor - Hot Nights In Rio 1977 – João Nogueira - Espelho 1977 - Agepê - Moro Onde Não Mora Ningém 1977 - Agepê - Agepê 1978 – Agepê - Tipo Exportação 1978 – Edson Frederico - O Som Brasileiro de Sara Vaughan 1978 – José Roberto Bertrami - O Som Brasileiro de Sara Vaughan 1978 – Lincoln Olivetti - Lígia – Osmar Milito 1978 – Maurício Heihorn - Lígia – Osmar Milito 1978 – Nelson Serra - Lígia – Osmar Milito 1978 – Osmar Milito – Lígia 1978 – Sara Vaughan - O Som Brasileiro de Sara Vaughan 1978 – Ugo Marotta – Lígia – osmar Milito 1981 – Edu Lobo – Edu & Tom 1981 – Tom Jobim – Edu & Tom 1983 – Bidinho – Tambá – Pascoal Meirelles 1983 – Léo Gandelman – Tambá – Pascoal Meirelles 1983 – Marcio Montarroyos – O Grande Circo Místico - Chico e Edu 1983 – Marcos Resende – Tambá – Pascoal Meirelles 2000 – Hamleto Stamato – Queens´s Teather de Nova York 2001 – José Boto – Modern Sound – Youtube 2002 – Haroldo Lobo – Modern Sound 2002 – JT Meirelles – Youtube 2002 – Max De Castro – Orquestra Klaxon 2004 – Daniel Garcia – Pascoal Meirelles Sexteto 2004 – Dario Galante – Pascoal Meirelles Sexteto 2004 - Carol Welsman - Mistura Fina - Rio de Janeiro 2005 – Ithamara Koorax – Antumn In New York 2006 – André Tandeta – Toca do Vinícius – Rio de Janeiro 2006 – Cor Bakker – Ilha Funchal – São Paulo 2006 – Duduka Fonseca – Bossa Na Pressão – Haroldo Mauro Jr. 2006 – Gehard Jeltes – Ilha Funchal – São Paulo 2006 – Laura Gygi – Ilha Funchal – São Paulo 2006 – Leonardo Amuedo – Ilha Funchal – São Paulo 2006 – Victor Biglione – Toca do Vinícius – Rio de Janeiro 2006 - Wagner Tiso – Um Som Imaginário 2006 – Kiko Continentino – Modern sound – Youtube 2007 – Michel Legrand – Modern Sound – Youtube 2007 – Miucha – Outros Sonhos 2007 – Ricardo Pontes – Modern Sound – Youtube 2007 – Altair Martins – Savassi Jazz Festival 2009 – Kiko Freitas – Sala Dos Professores - São Paulo 2009 - Mauro Senise - Ostinato - Pascoal Meirelles 2009 - Nana Caymmi - Sem Poupar Coração 2010 - Claudio Roditi Quinteto - Modern sound – Youtube 2010 – Nivaldo Ornelas – Festival De Jazz Do Rio de Janeiro – Youtube 2010 – Paulo Braga – Festival De Jazz Do Rio de Janeiro 2011 – Ciff Kormann – Rio Scenarium – Rio de Janeiro 2011 – Lula Galvão – Lapa Café – Rio de Janeiro 2011 – Pascoal Meirelles – TribOz – Youtube 2011 – Paulinho Trompete – Lapa Café 2011 – Ciff Kormann Trio – Rio Scenarium – Rio de Janeiro.
Pessoal, isso é só a “ponta do iceberg”. "Você ainda não ouviu nada!". Tem muito mais história, e continua.
Se ele pagou o INSS desde 1962, com 50 anos de serviço, já deveria estar aposentado, pescando, ou ensinando o neto a tocar hip hop com o Marcelo D2. Nada disso. Você se enganou. O cara está tocando por aí, curtindo muito. Todo profissional antes de se aposentar conta os dias na folhinha pra largar aquilo tudo que lhe enche o saco. O músico não, faz o que gosta, só para quando morre.
Antonio Álvaro Assumpção Neto, nasceu em São Paulo em 13 de agosto de 1954. Para mim o maior baixista que já vi tocar. Não estou falando apenas de nível Brasil. A sua morte prematura, com apenas 47 anos, deixou muita saudade. Ainda tinha muito que aprender e ensinar para a garotada que veio depois.
A paixão pelos Beatles e pelo Jazz sempre esteve presente em sua vida. Quando criança chegou a tocar numa banda “cover” dos garotos de Liverpool enquanto ouvia os discos de jazz do seu pai. Um de seus últimos projetos (1999), em parceria com Nelson Faria (guitarra) e José Namen (piano), era tocar Beatles em ritmo brasileiro. Não sei o que deu esse trabalho.
Nico, enquanto estudava com Luiz Chaves (o grande baixista do Zimbo Trio), tocava com um grupo de jazz nas noites paulistanas. Depois fez parte da banda de Arrigo Barnabé (“Clara Crocodilo”).
Em 1975 formou um trio com Eliane Elias (piano) e Paulo Cardoso (bateria), alunos do CLAM (escola do Luiz Chaves).
Em 1994, Nico Assumpção e Eliane Elias voltam a se encontrar no grande disco de Joe Henderson “Double Rainbow – The Music of Antônio Carlos Jobim”. A turma da pesada que toca no disco é composta por: Joe Henderson (sax tenor), Oscar Castro Neves (violão), Eliane Elias e Herbie Hancock, revezando no piano, Jack DeJohnette e Paulinho Braga (bateria) e Nico Assumpção e Christian McBride (no baixo). Esse disco seria uma parceria/homenagem de Henderson a Jobim, mas, infelizmente, Jobim partiu antes. Aliás, quase na hora. Jobim faleceu em 1994 e o disco foi lançado em 1995. Tem muita história sobre esse disco, depois eu comento.
Nico estudou na famosa escola de Boston, “Berklee College Of Music”. Lá fez arranjo e orquestração. Favor não confundir com aquela outra lá da Califórnia, a Berkeley, onde Jimi Hendrix fez o seu melhor show, em 1970, pouco antes de morrer. Em Boston a coisa era mais em baixo. Não desfazendo da outra, da guitarra.
Na década de 1970, Nico conheceu e tocou com a turma do Jazz nos EUA. Além de Ricardo Silveira (guitarra), que andava por lá, tocou com Claudio Roditi (gênio do trompete), Dom Um Romão (bateria), Charlie Rouse (sax), Dom Salvador (piano), Wayne Shorter (sax), Kenny Barron (piano), Billy Cobham (bateria) e muitos outros.
Na década de 1980, Nico volta para o Brasil e passa a morar não mais em São Paulo, mas agora no Rio de Janeiro. Cai na noite tocando com a nata da música instrumental que rolava na época. Era o Jazzmania, Mistura Fina, o Bar Prudente, etc. Tinha também as Domingueiras do Parque da Catacumba na Lagoa. Bons tempos.
Em 1985, toca no “Free Jazz Festival” com Ricardo Silveira (guitarra), Luiz Avellar (piano – outro monstro), Carlos Bala (bateria) e Steve Slagle (sax). Depois do show a galera corria pro Jazzmania, no Arpoador (Rio), para as famosas canjas. Preciso escrever alguma coisa sobre o Jazzmania e o Mistura Fina, duas casas noturnas do Rio que deixaram saudades. Sempre boa música. O Jazzmania era o sonho de consumo de todo músico aprendiz, como eu, tocar ali com aquelas feras. No Jazzmania cheguei a ver um show fantástico do Ricardo Silveira. Estava com uma namoradinha nova, que acabou se tornando minha esposa por 25 anos, quando vou dar uma chegada no banheiro, passo pelo balcão e vejo o Luizinho Eça, com aquele seu relógio quadrado, pedindo o seu “uisquinho”. Nessa noite ele não tocou nada. Devia ter vindo da Lagoa, do Chico´s Bar, para dar uma esticada, como era do seu costume. O Chico´s Bar também tem história, não pelo dono, que não me interessa, mas pela música. Você sabia que o Bill Evans tocou no Chico´s Bar? Com quem? Já vou responder.
O parágrafo acima foi maior que o normal, eu sei, mas tinha que dar uma idéia de como eram as noites do Rio nessa época. Ainda tem muito mais. Tinha também o People, no Leblon. “Mas aí, é outra história”.
Na década de 1990, Nico toca com todo mundo. É jazz, bossa, samba, choro, MPB e tudo que aparece: Simone, Wagner Tiso, Raphael Rabelo (saudades), Gal, Edú Lobo, Leny Andrade, Ivan Lins, César Camargo Mariano e já nem me lembro mais. Fora a turma de fora: Dionne Warwick, Joe Henderson, Phil Sheeran, Larry Coryell, Billy Cobham, etc. Coloquei aí em baixo, no blog, uma “sonzeira” com essa turma gravada em Salvador.
Em 1984, Nico grava com João Bosco o disco “Gagabirô”. João tinha brigado com Aldir e a gente nunca sabia o que viria dali pra frente. Afinal, a dupla sempre trazia algo cada vez melhor no próximo disco. A afinidade entre os dois é surpreendente; baixo, violão e voz criam uma música cheia de swing e levadas, “cada um levantando pro outro cortar”. Nascia uma dupla da pesada. Eram dois temperamentos fortes, duros de agüentar: “pavio curto”. A gente notava o respeito que cada um tinha pelo outro e a felicidade dos dois. Acho que foi uma das melhores fases de ambos. Essa “Linha de Passe” durou 15 anos. Tem muita coisa no Youtube, vale à pena conferir. Coloquei “Corsário” aqui no blog. É de arrepiar!
Nico Assumpção, segundo sua esposa Rossana, vivia para o contrabaixo às 24h do dia. “Era o dia 20 de janeiro de 2001. Nico faleceu (câncer no pulmão) e suas cinzas, no dia seguinte, foram depositadas na lagoa Rodrigo de Freitas. Nesse local, há uma placa em sua homenagem, colocada sob uma árvore, com o nome "Recanto Nico Assumpção". “10 Anos de Saudade”.
O famoso "Parque dos Patins", na Lagoa Rodrigo de Freitas (RJ), é também conhecido como "Espaço Victor Assis Brasil". Eu proponho que lá pelos lados do Jardim Botânico (na Lagoa) seja criado o "Espaço Marcio Montarroyos". Mais ao Norte (olhando da Curva do Calombo em direção a Pedra da Gávea, que eu não sou maluco, eu sou geólogo) , lá pelos lados do Leblon, mais perto do antigo People, o "Espaço Edson Machado". E mais pra perto da Praia de Ipanema, ainda na Lagoa, pros lados do Caiçara, o "Espaço Luizinho Eça". Dizem que Tom Jobim, quando era pequeno, nadou muito na Lagoa. Já pensou!?
A Banda que eu não vi tocar (juntos): a Melhor Banda do Mundo: Nico Assumpção, Victor Assis Brasil, Marcio Montarroyos, Edson Machado, Luizinho Eça.
Pessoal, não pretendo me estender mais, está tudo na página
http://www.nicoassumpcao.com.br/home.html
Inacreditável! Como o Nico estava feliz (é muita arte)!
O Robertinho Silva não vale, esse está sempre rindo.